Memórias


Casa JCarlos
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Residência do chargista e caricaturista J. Carlos

José Carlos de Brito e Cunha nasceu em 18 de julho de 1884. Filho de Eduardo Augusto O’Neil de Roure Brito e Cunha e de Maria do Loreto Carneiro Viana Carvalho de Melo, descendia, por parte materna, das primeiras famílias povoadoras da cidade, desde o século XVI (1).

Carlos foi um chargista, caricaturista, desenhista, pintor, ilustrador e designer gráfico brasileiro. Iniciou sua carreira em 1902, na revista O Tagarela. Após conceber diversas publicações adultas e infantis, emprega-se, em 1908, na revista A Careta, onde trabalhou até 1921. Paralelamente, colaborou nas revistas Fon-Fon, A Cigarra, Tico-Tico, O Cruzeiro, Almanaque do Tico-tico e O Malho, sendo esta última dirigida por ele a partir de 1918. Fez crônicas do processo de urbanização da capital carioca e de seus efeitos sociais. Entre 1922 e 1930, exerceu o cargo de diretor artístico das empresas O Malho, onde inicia uma grande série de charges de caráter político, satirizando fatos e personalidades nacionais e estrangeiras. Criou uma série de charges antibelicistas no período entre as duas grandes guerras mundiais publicadas na revista A Careta, bem como publicou ilustrações criticando a política imperialista norte-americana.

Caricatura JCarlos 1 JCalros GordoMagro Revista Fon Fon JCarlos

 

É considerado “um dos mais originais caricaturistas brasileiros da primeira metade do século XX. O humor, a rapidez e clareza de seu traço registram as mudanças de costumes e comportamento ocorridas no Rio de Janeiro. J. Carlos também criou, no início dos anos 1920, os personagens infantis Jujuba, Lamparina, Goiabada e Carrapicho, numa época em que quase ninguém se preocupava com o público infantil. Não à toa, quando Walt Disney visita o Brasil por ocasião do lançamento de seu filme Fantasia, tenta, sem êxito, levar o artista brasileiro para Hollywood” (Enciclopédia Itaú Cultural). J. Carlos faleceu em 2 de outubro de 1950.

Sua casa foi erguida em terrenos outrora pertencentes a Rodrigo de Freitas Castro (século XVIII). No início do século XIX, com a desapropriação das terras promovidas por D. João VI e o surgimento de uma povoação, alguns lotes de terra foram divididos e arrendados pela Fazenda Nacional a novos proprietários, que criaram algumas chácaras.  Uma grande chácara, de nº 61, cognominada Chácara da Bica, pertenceu primeiramente a Antonio José Pinto Monteiro e sua esposa Esperança Leonarda do Sacramento, sendo essa a única propriedade do lado esquerdo da estrada, chegando às margens da lagoa. A Chácara continuou a pertencer à família Pinto Monteiro até seus netos, Vicente José Pinto e Francisca Joaquina da Silva, que na década de 1830 a venderam a Bernardo Antonio Duarte. Em 1838, obedecendo à nova regularização da Fazenda Nacional, passou a ser registrada como Chácara nº 3. Entre 1840 e 1853, a propriedade constava nos registros como pertencente a Domingos Antonio Duarte, que a vendeu nesse último ano ao Comendador Francisco Antonio de Carvalho Ribeiro, genro de D. Castorina (que também se tornou nome de rua no bairro). Em 1875, a chácara foi vendida a José Moreira da Fonseca, genro do Comendador, que, entre 1875 e 1879, a dividiu em duas partes para Suzana Sampaio e Umbelina Luiza de Medeiros Guimarães, que também a venderam algum tempo depois.

No final do século XIX e início do século XX, o atual bairro do Jardim Botânico presenciou o desmembramento das antigas chácaras. Surgiram loteamentos e arruamentos em ambos os lados da rua da Oliveira, que passou a se chamar rua Jardim Botânico.

Em 1941, onde se localizava a Chácara da Bica, em sua vertente voltada para a encosta, uma empresa chamada A Propriedade subdividiu as terras e criou novos logradouros e arruamentos criando o bairro “Jardim Redentor”. Esse novo bairro que surgia, criou, segundo projeto do engenheiro urbanista José Otacílio Saboya, duas novas ruas. Uma delas foi a rua Sucupira, que fazia esquina com a rua onde morava o caricaturista e cartunista J. Carlos, que, posteriormente, passou a homenagear seu ilustre morador.

Adornada com técnica Enxaimel, ou Fachwerk, típica da arquitetura alemã, a casa foi demolida na década de 1950 e, em seu terreno, foi erguido um edifício residencial de sete andares, com cinco unidades por andar, onde até 1980 ainda residiu ,um de seus filhos Eduardo Augusto de Brito e Cunha, pai de Oscar Henrique, que publicou dados valiosos sobre a residência de seu avô, no Facebook, em 2011.

 

Fontes: Fotos e conteúdo

http://rio-de-janeiro-desaparecido.blogspot.com.br/2011_06_01_archive.html

JARDIM BOTÂNICO – Da Bica a J. Carlos – para Oscar Henrique

 

Bondes 1880
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Reminiscências da rua Jardim Botânico

Em 1577, surgiu o primeiro caminho que, cruzando as terras do atual bairro de Botafogo, ligava o centro da cidade ao Engenho D’El Rei (antigo Engenho Nossa.Senhhra da Conceição da Lagoa). Até o século XIX, seguia-se até a Peaçaba (hoje Igreja Santa Margarida Maria), de onde utilizando-se um ancoradouro que havia às margens da Lagoa, tomava-se uma pequena embarcação ou canoa para chegar ao engenho e às praias dos atuais bairros de Ipanema e Leblon. Quem optasse por continuar o caminho a cavalo, pegava o Caminho da Gávea, aberto entre a Lagoa e a encosta do Corcovado (*1).

Lagoa Rugendas

“Lagoa de Tretas” Lagoa Rodrigo de Freitas, c.1824. J.M. Rugendas. Acervo FBN

As margens da Lagoa, conhecida pelo índios como Sacopenapan, eram terras férteis, propícias para o plantio de cana-de-açuçar, uma das monoculturas essenciais do período, fazendo com que a ocupação populacional fosse expandindo-se de forma lenta e gradativa. Em torno de 1660, essas terras foram adquiridas por João de Freitas Mello e Castro, que legou-as a seu filho Rodrigo de Freitas Mello e Castro ao retornar a Portugal, permanecendo, assim, em poder da mesma família até 1808, quando da chegada da Corte Portuguesa ao Rio de Janeiro.

Já nos séculos XVII e XVIII, importantes chácaras e casas de campo já bordejavam a atual rua Jardim Botânico (aberta um século antes). Para lá, afluíam muitos cidadãos ricos, que passavam meses e até estações inteiras, desfrutando o ar saudável e aprazível. Em consequência disso, com o tempo, o caminho foi sendo alargado, tornando-se uma estrada carroçável.

Lagoa Chamberlain

“Lagoa de Freitas”. 1822. H. Chamberlain. Acervo FBN

Em 1808, com a criação do Horto Real, atual Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro, a estrada foi alargada e nela passaram a circular, além de cavalos, bondes e veículos particulares movidos à tração de animais, os hipomóveis (carruagens, tilboris, vitórias, charretes). As linhas de bondes puxados a burros passaram a chegar até o Jardim Botânico em 1862, por iniciativa do Barão de Mauá, que organizou a Companhia de Carris de Ferro Jardim Botânico. Em 1871, essa linha foi estendida até a Gávea, na altura do Solar Grandjean de Montigny, facilitando assim não apenas a visitação ao Real Jardim Botânico, como a expansão urbana para os bairros que nasciam. Os bondes elétricos com o carro de nº 104 da Cia. Ferro-Carril do Jardim Botânico, iniciaram seus serviços em 8 de outubro de 1892 (*3) e vieram a se tornar o principal meio de transporte coletivo da região, até a década de 1950, quando foram extintos.Levava-se cerca de uma hora para se deslocar do Jardim Botânico ao centro da cidade.

Postal bondes

Cartão postal de Bondes no JB. séc XIX

Entre 1830 e 1880, o caminho que começava na Peaçaba ficou conhecido, em seu trecho inicial, como Rua do Oliveira, em homenagem a José Antonio de Oliveira e Silva, um destacado dono de venda da região. A rua, que não possuía o traçado atual, percorria um trajeto junto ao sopé do Corcovado e ia até a desembocadura do Rio Cabeça, objetivando afastar-se das margens da Lagoa que inundavam com frequência(*1).  Em 1853, começou a ser aterrado e alargado pelo Comendador Carvalho Ribeiro, da Chácara da Bica (nº 3) e, bem depois, quando calçado, se transformou na Rua Jardim Botânico (*2), com o traçado geográfico que conhecemos hoje. O caminho ia até a Gávea, percorrendo o Caminho da Boa Vista (atualmente Marquês de São Vicente), mas, próximo a Ponte de Tábuas (ponte feita de taboas, planta que abundava na região, e cujas folhas, quando secas, eram utilizadas para calçar e nivelar os caminhos (*5)), conduzia a três variantes: a primeira subia em direção à Vista Chinesa e chamava-se Estrada da Azinhaga da Floresta, aberta em 1857, pelo Almirante Thomas Cochrane. As outras duas cortavam o futuro Jardim Botânico e uniam-se na altura do Largo das Três Vendas, onde atualmente se começa a Rua Major Rubens Vaz, na Praça Santos Dumont (*1).

Naquela época, a região já era relativamente habitada, e os caminhos que conduziam às chácaras e propriedades de menor porte, já demandavam a criação de uma malha viária que as conectasse com a principal artéria do bairro que surgia. A cada dia, a região atraía mais membros da aristocracia e visitantes nacionais e estrangeiros, transformando-se num dos passeios preferidos por todos, em virtude da beleza geográfica, proporcionada pelo contraste entre a montanha e a Lagoa, além do clima ameno. Muitos estrangeiros, encantados com a natureza, estabeleceram-se na região e atraíram moradores do campo e da cidade, motivados também por problemas de escassez de água no centro e em bairros de seu entorno.

Em 1850, margeando esse caminho pelo lado direito, encontrava-se a Chácara do Padeiro, depois dos Lages (nº 5). Em 1876, a Chácara da Fortaleza (nº 2) unia duas casas, as primeiras da rua Jardim Botânico (*1). Anos depois, na Chácara nº 6, ergueu-se a Fábrica de Tecidos Corcovado (1889). Um pouco mais adiante, via-se, no alto, a Capela Nossa Senhohra da Cabeça, edificada entre 1603 e 1607. Seguindo em frente, passava-se por uma pequena ponte de madeira, sobre o Rio Cabeça e, logo a seguir, a Ponte de Tábuas, construída posteriormente sobre o Rio dos Macacos, chegando até o portão de entrada da Fábrica de Pólvora e do Horto Real. Mais adiante, avistava-se a Casa Grande do antigo Engenho Nossa Senhora da Conceição da Lagoa.

Fabrica Corcovado

“Fabrica Corcovado” Marc Ferrz. C. 1895. Acervo IMS.

Do lado esquerdo desta rua, havia a Lagoa, com sua vegetação de manguezais, que lentamente foi sendo retirada e a região pantanosa, soterrada, principalmente em virtude das inundações da Lagoa, o que ocasionou a mudança de traçado original e obras de saneamento.(séculos XIX e XX). Em desenho da Lagoa Rodrigo de Freitas, do Barão de Teffé (1880), vê-se a Chácara da Bica, de nº 61 – posteriormente registrada no nº 3 –  e depois a Chácara de Chico das Freiras.

Com o passar dos anos, as margens da Lagoa foram sendo ampliadas. Diversos hotéis e residências foram inaugurados na rua no final do século XIX: o Hotel Orleans (rua JB, nº 5), o Hotel do Jardim Botânico (rua JB, nº 7), o Hotel Londres, o Chalet Campestre Restaurante (rua JB, nº 25), em frente ao portão do Jardim ( *4),o Hotel Amaral (Chácara 23 – JB esquina com rua da Boa Vista, hoje Marquês de São Vicente) e o Hotel de L’Etoile Du Sud.

Os passeios campestres entraram em moda e o Jardim Botânico tornou-se um dos locais preferidos para esse fim. Surgiram também restaurantes, clubes e associações, como a Sociedade Dramática da Gávea, frequentemente prestigiada com a presença de D.Pedro II e da Imperatriz D. Thereza Christina (*5). Casas, chácaras e sítios começaram a ser ofertados para aluguel. O Jardim Botânico foi aberto à visitação pública em 1828 e tornou-se o local predileto da burguesia e da aristocracia para reuniões sociais, piqueniques e passeios. Nos finais de semana, a população mais modesta usava a rua Jardim Botânico para se divertir ao som de bandas de música e a aristocracia frequentava os restaurantes e hotéis campestres situados nessa mesma rua.

No início do século XX, quase em frente Chácara nº 4 (Chácara dos Lages), surgiu, em 1920, o majestoso Solar Monjope (demolido em 1973). Entre 1926 e 1931, em frente ao Jardim Botânico, havia uma área ocupada com vegetação de mangue e de espécies amazônicas, que foi adaptada para abrigar o prado de corridas do Jockey Club (1926), na administração de Pacheco Leão.

O século XX trouxe mais aterramentos e especulação imobiliária e viu o bairro transformar-se de área rural para urbana. A expansão do transporte coletivo, com várias linhas de ônibus, associada à implantação dos sistemas de água, esgoto e de energia elétrica, contribuiu de forma substancial para mudar o panorama da rua e do bairro, ocasionando mudanças físicas, sociais e culturais, alterando o modo de vida e o perfil dos habitantes locais. Já não eram apenas os latifundiários, operários das fábricas, agricultores e pessoas de alto poder aquisitivo que fixavam suas residências no Jardim Botânico, mas gente de diferentes classes sócio-econômicas, com predominância de uma classe média em ascensão, que passou a interagir num mesmo espaço físico, agora mais ordenado, embora com grande mercantilização do solo.

Voltando na história, a rua originariamente de terra batida, deve ter recebido revestimento do tipo “pé de moleque”, como era comum nas estradas nos séculos XVII e XVIII. Posteriormente, foi forrada de paralelepípedos e, finalmente, asfaltada.

Portico JB 1890                                        Ponte Taboas

Pórtico do Jardim Botânico. C. 1890.GUTIERREZ,                      Ponte de Taboas.A. Malta.s/d. Acervo MIS
Acervo:MHN

No final do século XIX e início do século XX, as chácaras acabaram, assim como foram demolidos hotéis, residências e casas mais humildes. Surgiram belas edificações, como Casa das Águias (1910), as majestosas Mansão Lage (1920) e Solar Monjope (1920). Como afluentes de um rio, inúmeras ruas foram sendo abertas, tendo a rua Jardim Botânico como artéria principal. A história tomou seu curso. Surgiram novas edificações e outras tantas foram demolidas, como a Fábrica de Tecidos Corcovado, o Solar Monjope, a matriz original da Paróquia São José, o Cinema Floresta (posteriormente Jussara) e a casa do ilustre caricaturista J. Carlos.

Entre 1940 e 1950, vários edifícios foram construídos e novas casas – como a do Ministro do Tribunal de Contas, João Lyra Filho – foram erguidas e permanecem até os dias de hoje. Entretanto, entre 1951 e 1955, alguns terrenos “baldios” ainda existiam, como a área onde veio a ser construído, em 1952, o Hospital dos Bancários, hoje Hospital da Lagoa, que por algum tempo abrigou um acampamento cigano. Ali em frente, outro terreno abrigava um barraco, onde morava um mendigo, chamado pela garotada de “papa-ôvo”. O mesmo foi ocupado pelo maior posto de gasolina do bairro, o Shell, demolido em 2012.

A partir de 1950, a rua ostentou também vários estabelecimentos comerciais, como a Casa Touro, a Casa Lindóia de Tecidos, a Farmácia do Sr. Pedro, o Bazar Ideal, o Instituto Souza Leão, o Carioca Esportes Clube, entre outros, que já não existem mais e foram substituídos por outros tipos de comércio. Com o passar dos anos, surgiram prédios de relevantes serviços comunitários, como o da Igreja Metodista (1907), do Hospital da Lagoa (1952), da ABBR (1954), do Centro Espírita Aliança do Divino Pastor (1960) e vários edifícios empresariais, comerciais e residenciais que marcaram o início da verticalização do bairro.

Após o surgimento dos túneis Rebouças (1967) e Zuzu Angel (1971), a rua Jardim Botânico tornou-se um eixo viário de tráfego intenso, ligando as zonas Norte, Sul e Oeste da cidade. Muito do encanto se desvaneceu, com a transfiguração de casas centenárias em edifícios de concreto e espelhados, cercados por grades de alumínio. Poucos exemplares da arquitetura pretérita foram preservados por meio de tombamentos.

Em 2012, prospecções arqueológicas encontraram objetos do século XIX, na esquina das ruas JB com Saturnino de Brito. O presente evidenciava o passado mais remoto. Da ocupação indígena dos tupinambás ao século XXI, esse caminho presenciou a história local.

Moradias

“Moradias no Jardim Botânico”. Lilian Schwind. Século XIX-XX. Acervo FBN

A rua Jardim Botânico, testemunha o passado, absorve o presente e aguarda o futuro, pois é a partir dela que escoa o tempo, desde seus primórdios e, especialmente, a partir de 1575,  nesta capitania do Engenho d’El Rei,  que coube a Antonio Salema povoar.

JB 1920                     JB 1940

JB 1950                                           JB 1960

Imagens da rua Jardim Botânico nas décadas de 1920, 1940, 1950 e 1960.

JB 700 e 674

Trecho da rua Jardim Botânico nos anos 2000.

Fontes:

*1 – BARATA, Carlos Eduardo, GASPAR Claudia Braga. A Fazenda Nacional da Lagoa Rodrigues de Freitas na formação do Jardim Botânico, Ipanema, Lagoa e Fonte da Saudade. Biblioteca Rio 450. Publicação oficial. Cassará Editoria. Rio de Janeiro. 2015. Pág 70

*2 – (http://portalgeo.rio.rj.gov.br/armazenzinho/web/BairrosCariocas/main_bairro.asp?area=028

*3 – http://www.museudantu.org.br/ERiodeJaneiro2.htm

*4 – Jornal do Commércio, edições de 8 de março, 9 de agosto e 7 de dezembro de 1873, in O Bairro , por Gilson Koatz, Folha do Jardim Botânico. Jornal da Associação de Moradores e Amigos  do Jardim Botânico – AMAJB. Ano 1 – Nº  2, Dezembro2004/janeiro 2005, pág 8 – “ Um pouco da história pouco conhecida do nosso bairro”.

*5 – VARGAS, Celso e TAVARES, Selma. Jardim Botânico história e evolução do bairro. Coleção Bairros Cariocas. Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro. Secretaria Municipal de Cultura. Departamento Geral de Patrimônio Cultural. Rio de janeiro. 1999.

Imagens 1 e 2:  http://rio-de-janeiro-desaparecido.blogspot.com.br/2011_06_01_archive.html

 

SOLAR MONJOPE

Rua Jardim Botânico, esquina com a Rua Tasso Fragoso nº 33
Século XX – Construído entre 1920 e 1928 e demolido em 1973.

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Propriedade pertencente a José Marianno Filho, situada em terras anteriormente conhecidas como Chácara de Bica, pertencente a José Pinto Monteiro, desde 1809, e que correspondia ao Sítio 61, sendo essa a única chácara localizada do lado esquerdo da Rua Jardim Botânico, então conhecida com Rua do Oliveira. Essa propriedade foi posteriormente registrada como Chácara nº 3. Possuía 300 m de frente para a Rua do Oliveira e fundos que iam até a Lagoa Rodrigo de Freitas.

O Solar Monjope teve sua edificação principal construída sobre a original, erguida em estilo colonial. Há registros históricos que indicam que no local já havia um grande casarão construído em 1853, pelo antigo proprietário da Chácara da Bica, o Comendador Carvalho Ribeiro, e que o novo proprietário a reformou e transformou no solar que copiava o engenho secular da família Carneiro da Cunha, em Pernambuco. (*1)

Seu proprietário, o Dr. José Marianno Filho(*2), médico, colecionador e crítico de arte, de arquitetura e de urbanismo do RJ; foi um dos pioneiros do movimento neocolonial. Construiu seu solar utilizando elementos arquitetônicos e decorativos que viriam a constituir o estilo neocolonial brasileiro, embora utilizasse também elementos ecléticos. Foi considerado um dos mais importantes exemplos desse estilo arquitetônico. Seu solar rende homenagem à fazenda Monjope, onde nasceu, próxima a Recife.

“Tratava-se de uma construção em “planta angular”, “galerias alpendradas”, “telhados em capa e bica apoiado sobre colunas toscanas”, “um chafariz colonial autentico, recolhido das antigas construções pernambucanas”, “uma torre lateral com um vão guarnecido por um muxarabi” (BITTAR, 1996, p. 18-19) e, também, três copiares”. Bancos de alvenaria cercados de balaustres e vasos ornamentais, adornavam o jardim.

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O solar era decorado com grandes painéis de azulejo do século XVIII, oriundos de igrejas da Bahia e de Pernambuco. José Marianno Filho adquiriu móveis e valiosos objetos coloniais legítimos na região Nordeste e os inseriu em sua residência. Elementos arquitetônicos como, gelosias e muxarabis fechavam as varandas, dispôs enormes pinhões nos cantos do telhado, que contava com beirais pronunciados de telhas canal. (DECOURT, 2009).Grades simulavam senzalas e animais da fauna brasileira(jacarés), em ferro fundido enfeitavam os jardins.

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Em 1929, o Solar serviu de cenário para o filme “Sangue Mineiro” dirigido por Humberto Mauro, com cena ilustrada na fotografia abaixo.

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Após a morte de seu ilustre proprietário, em 1946, sua esposa D. Violeta Siciliano Carneiro da Cunha, viveu mais três décadas, reclusa em um de seus torreões até seu falecimento em setembro de 1972. (HAMILTON, 2008)

José Marianno Filho foi um defensor da arquitetura “tradicional” no Brasil. Publicou inúmeros livros de importância para a História da Arquitetura Brasileira. Provocou calorosos debates em defesa do neocolonialismo contra o modernismo arquitetônico, e, com isso angariou inimigos nesse campo, incluindo entre eles Lúcio Costa.

Por seu valor artístico e ambiental, a propriedade havia sido tombada pelo estado, mas por influência política e a enorme especulação imobiliária, conseguir-se que, em 1973, no governo Chagas Freitas, o tombamento fosse cancelado, e, com o aval do DPHAN e depois IPHAN, fosse demolido.

A propriedade era constituída de residência, amplos jardins com inúmeras árvores frutíferas e frondosas, que caracterizariam um patrimônio ambiental urbano. Em seu terreno, hoje figura o Condomínio Parque Monjope. Restou apenas o portal de entrada do solar, com um medalhão no alto, onde sobressaem as armas da família.

Segundo sua neta, Sylvia Hamilton, a demolição do solar “significou o desaparecimento de um capítulo precioso da memória arquitetônica, artística e paisagística do Rio de Janeiro”.

(*2)José Mariano Carneiro da Cunha Filho (13/04/1881: Pernambuco – 05/06/1946: Rio de Janeiro, RJ)

 

Fontes:

• BITTAR, William Seba Mallmann. O movimento neocolonial na arquitetura do Brasil. Caderno de Arquitetura / Departamento de Arquitetura, Urbanismo e Paisagismo. Bauru: FAAC, UNESP, Ano 1, n.2, jul.-dez. 1996, p.16-27
• COELHO, Olinio Gomes P. Revista do CREA –RJ, RJ. 2008
• HAMILTON, Sylvia e BANDEIRA, Júlio. Solar de Monjope.Editora Reler. RJ. 2008.
• BARATA, Carlos Eduardo e GASPAR, Claudia Braga. A Fazenda Nacional da Lagoa Rodrigo de Freitas na formação de Jardim Botânico, Horto, Gávea, Leblon, Ipanema, Lagoa e Fonte da Saudade. Cassará Editoira. Rio de Janeiro. 2015
http://www.brasilartesenciclopedias.com.br/nacional/mariano_filho_jose.htm
http://www.dezenovevinte.net/criticas/la_jmarianno.htm
http://www.rioquepassou.com.br/2009/01/29/solar-monjope/ – Andre Decourt
http://blogdohenriqueautran.blogspot.com.br/2014/03/o-solar-monjope-e-maldicao-de-brasilia.html
• (* 1) http://rio-de-janeiro-desaparecido.blogspot.com.br/2011_06_01_archive.html

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